30 de set. de 2012

FUTURO

Os animais “puros” (Gn 7.1), isto é, os que podiam servir à alimentação de gente religiosa.
Se extirpássemos de nós um defeito por ano, nos tornaríamos logo pessoas perfeitas. Mas, ao contrário, sempre temos a impressão de que no início de nossa conversão éramos melhores e mais puros de que depois de muitos anos de profissão religiosa. Fervor e progresso deveriam crescer em nós a cada dia. Em vez disso, considera-se extraordinário ter podido conservar parte do primitivo fervor. Se desde o começo tivéssemos praticado a violência conosco mesmos, poderíamos fazer tudo com leveza e alegria. 
O “mundo” de Noé era como o mundo de muita gente de nossos dias. Num povoado na selva, sem televisão, nem rádio, nem celular. O mundo é muito pequenino, e a enchente poderosa maltrata “todo  mundo”, alaga “o mundo inteiro”. Para muitos de nós o mundo é a terra. Para alguns, o mundo inclui nebulosas! Mas, para todos, se não formos capazes de responsabilidade, estudo, reflexão, observação dos “sinais dos tempos”, os desastres mais previsíveis cairão sobre nós como misérias medonhas! Por isso meditemos bem para entender que podemos ser bom num mundo cheio de corrupção.
Lembrete:
Não lutes inutilmente. Uma vez que experimentaram o gosto da minha Palavra e conhecido minha vontade, meus filhos jamais poderão encontrar satisfação fora do que eu tenho de melhor para suas vidas.
Pode ser que eu ache proveitoso anotar palavras e frases e considerá-las uma de cada vez. Ou talvez eu ache mais proveitoso deixar que minha imaginação me leve à cena e contemplar os acontecimentos futuros. E então considero a mim mesmo e como isso se aplica a mim.
Textos: Mt 25,31-46; Dn 12,1-13; Ap 19,1-10; 21,1-18.
Vamos ouvir Jó e João:
Jô, porém, amava a vida e apostava na vida. Sua aposta foi tão inspirada, alta e ousada que ele se atreveu a proclamar sua esperança na ressurreição, coisa que ninguém falava naquele tempo:
“Quem me dera que as minha palavras fossem registradas, gravadas numa inscrição; com cinzel de ferro e estilete. Esculpidas na rocha eterna!
Eu sei que o meu Defensor vive, e que no fim se levantará do pó: depois do meu despertar, ele me levantará junto dele, em minha carne verei meu Deus!” (Jó).
E João: “Aquele que eu vir será para mim, Aquele que meu olhos contemplarem não será um estranho!”

29 de set. de 2012

O DILÚVIO

“Aparece como bênção divina o fato de as águas terem recuado, permitindo que houvesse terra firme e vida humana” (Gn 1).
Se, como homens fortes, nos esforçamos por permanecer firmes no combate, certamente veremos o socorro de Deus chegar-nos do alto do céu. Pois ele está pronto a ajudar os que combatem com sua graça, ele, que nos dá a ocasião de combater para que saiamos vencedores. Se fizermos nosso progresso espiritual depender apenas das observâncias exteriores, nossa devoção não durará. Mas apliquemos o machado `a raiz (Mt3,10), para que, purificados do mal que nos arrasta, possuamos a paz do espírito. 
Nas ilustrações de livros para crianças e na imaginação de muita gente, Noé é um simpático avô, acolhendo uma procissão de bichos, que entram docilmente em sua enorme arca! E havia pessoas recolhendo pelo mundo afora memórias de grandes enchentes para provar por “a + b”, que o dilúvio atingiu todo o globo terrestre! Aí já não falamos de coisas da Bíblia, mas de coisas que ficam “fora da Bíblia”!
O relato bíblico sobre Noé está no conjunto dos relatos do livro do Gênesis. No primeiro capítulo, aparece como bênção divina o fato de as águas terem recuado, permitindo que houvesse terra firme e vida humana (Gn 1). A obra de Deus é criação, organização, ornamentação. O pecado é causa de destruição e confusão. Nas grandes enchentes, terra, água e céu, tomado de baixas, escuras e pesadas nuvens, se misturam. São símbolos claros do pecado e da corrupção de uma sociedade que só se preocupa com “desenvolver-se”, não observa os “sinais dos tempos”, não cuida do jardim (Gn 2). O desastre pega a esses descuidados sem lhes deixar recurso.
Noé representa o homem de fé, que vê, julga, atua. Sendo capaz de pôr mãos à obra, certamente ele não era um velho. As altas idades, na “matemática” dos hebreus, só significavam vidas úteis e bem aproveitadas, abençoadas por Deus e muito fecundas.
O salmista faz uma oração estranha. Ele não me pede que julgue os orgulhosos ou os abastados, mas reza por si mesmo pedindo: “Piedade de nós, Senhor!”.
Não tomes atitudes precipitadas, levada pelo teu entendimento apenas, mesmo que seja para fazer coisas que eu coloquei em teu coração para serem feitas. Existe um tempo para cada coisa e existe um tempo especial, apropriado para o que eu te mandei fazer.
Meditação:
Vamos ouvir mensagens do Velho Testamento:
Com Tomé, reconhecemos o efeito dessa presença de Cristo, Vencedor da Morte, quando ele rompe nossos esquemas, nossos preconceitos e raciocínios de sabedoria e ciência humana, para chegar a nós, e nos concede amar Suas chagas, gloriosas chagas. Então, finalmente, dizemos de verdade: “Meu Senhor e meu Deus!”. Depois é só partir para proclamar, também no terceiro milênio, a força e o poder do evangelho: “Na verdade, eu não me envergonho do evangelho. Ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego. Porque nele a justiça de Deus se revela da fé para fé, conforme está escrito: ‘O justo viverá da fé’” (Rm 1,16).

28 de set. de 2012

NOÉ

“Não sabemos ler os sinais dos tempos” (Mt 16,3).
Se estivéssemos perfeitamente mortos para nós mesmos e pouco metidos nos negócios terrestres, poderíamos saborear as coisas de Deus e adquirir certa experiência da contemplação das coisas do céu. Tudo se torna obstáculo intransponível: não estamos livres do mal que nos arrasta dos maus desejos, não nos esforçamos por entrar no caminho de perfeição dos santos. Quando a menor contrariedade sobrevém, logo ficamos abatidos e voltamos às consolações humanas.
Desastre da responsabilidade (ou irresponsabilidade) humana. Não sabemos ler os sinais dos tempos (Mt 16,3).
 O que faziam os corruptos da geração de Noé, no mundo de Noé? Responde Jesus:”Como no tempo de Noé, assim também acontecerá quando vier o Filho do Homem. Pois, como nos dias antes do dilúvio, homens e mulheres comiam, bebiam e se casavam, até o dia em que Noé entrou na  arca. Nada perceberam até que veio o dilúvio e engoliu a todos...”(Mt 24,37-41).
Ocupados com nós mesmos, não olhamos em volta: não vemos a fome no mundo ou a devastação da natureza, a queima de recursos valiosos, que a natureza levou milhões de anos para acumular. Noé, homem de Deus, perscrutava os sinais do tempo, seguia as inspirações do Espírito! E passou pelo dilúvio...Podemos aprender com o pai Noé, não resta dúvida! E passar os maus tempos.
Lembrete:
Ou de novo, eu poderia contar as muitas maneiras em que poderia morrer em qualquer dos dias mais comuns da minha vida. Como é que isto muda o meu jeito de considerar meus “dias comuns” e meu mundo de cada dia?
Ou, finalmente, eu poderia escrever um artigo descrevendo minha própria morte. Como é que isso me faz sentir? Como descreveria o que fiz em minha vida? O que desejaria, de todo coração, incluir na descrição da minha própria vida? Então considero se existe alguma coisa que eu deva esclarecer em minha mente agora.
Meditação:
Morei demais com gente que detesta a paz. Eu sou pela paz, mas quando falo em paz, eles só querem guerra (Mt 16,3).
Vale a pena nos determos ainda um pouco com Paulo e sua proclamação poderosa da Ressurreição: “mas dirá alguém: ‘Como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?’
Gente sem juízo! O que semeias não readquire a vida, a não ser que morra! E o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer: cada semente. Ele dá p corpo que lhe é próprio...
O mesmo se dá na ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível. Semeado desprezível, ressuscita brilhante de glória”.

27 de set. de 2012

ENCHENTE UNIVERSAL

“Realizaste o desejo do seu coração, não rejeitaste o pedido que fez”. (Sl 21,1-4)
Por que certos santos conheceram tal grau de perfeição e de contemplação? Aplicaram-se a morrer a todo desejo terrestre. Dessa forma, apegaram-se a Deus com todas as fibras do seu coração e puderam ocupar-se consigo mesmos com toda a liberdade. Quanto a nós, estamos muito ocupados com nossas próprias paixões e atentos ao que acontece. Nossas vitórias sobre nossos defeitos raramente são totais, e nos falta ardor no progresso cotidiano. Assim permanecemos entorpecidos e tíbios.
Deus pode se arrepender? Quem duvida é porque imagina um deus-idólo, um deus, morta estátua que, como os deuses dos idólatras, tem olhos, mas não vê, tem ouvidos, mas não ouve (Sb15). O Deus vivo não é assim! Disse Maria: “Sua misericórdia vai de geração em geração” (lc 1,50). Como todo o Povo de Israel e conosco Maria canta o Salmo 103/104,8: O Senhor é misericordioso e benevolente...”. “Assim, Ele vê que na terra crescia a maldade dos homens  e
que toda a sua atitude era perversa” (Gn  6,5).”E se indigna, como Jesus no Templo” (Jo 2,14ss.)!E se decide a um novo recomeço aquela gente vai ser apagada pelo dilúvio, e Noé e um pequeno grupo serão a semente de um novo tempo!
Para o autor sagrado, o Criador não é irresponsável: ele criou o céu e a terra. Desse modo as grandes inundações, os terremotos e os vulcões são partes da natureza e criaturas suas. Se há dilúvios, a responsabilidade é dele! Não resta dúvida! Entretanto o que está acontecendo na terra, em grande parte, é responsabilidade humana. No grande terremoto de 2008 na China, construções frágeis, feitas com pressa irresponsável ou vítimas da corrupção desenfreada, desabaram matando crianças, filhas de pais que só podem ter filho, por força da lei dos homens.
Ele me cria constantemente dando-me o bem para fazer, formando em mim necessidades e propósitos que me conduzirão a minha santidade e felicidade, fazendo com que apareçam bons desejos em mim, por causa de seu amor e por causa do grande amor que sente por meus semelhantes e pelo meu próprio ser. Deus é gentil e bondoso. Deus é sábio e sumamente paciente. Deus dá os seus dons a mim, e até a Si mesmo. E que faço eu senão jogar fora minhas santas necessidades e propósitos, e ignorar e desprezar os muitos bons desejos para ir em busca de prazeres e de poder? Por acaso sou como Deus?
Lembrete:
Olho para a criação de Deus. Quando olho para a maravilhosa ordem do universo e para a consciência dos animais e pássaros, admiro-me por não girarem em torno de mim, cada um em seu próprio caminho. Enquanto rejeito ser meu verdadeiro eu, a gravidade da terra continuou me sustentando e o sol negou-se a queimar-me como a um carvão.
Senhor, tenha piedade de mim; Te amo!

26 de set. de 2012

MISERICÓRDIA

“Também é preciso vigiar e orar” (Mt 26,41).
Mais eis que buscamos isso em vão e por nada: essa consolação que vem de fora é paga à custa da consolação interior e divina. Também é preciso vigiar e orar (Mt 26,41) para não perder o próprio tempo. Se é bom e útil falar, fala do que pode edificar.
Os maus hábitos e a crescente negligência são as grandes responsáveis pelos pruridos da língua.
Foi Pedro, Apóstolo, quem perguntou a Jesus: “Senhor,quantas vezes terei que perdoar a meu irmão, se ele pecar contra mim? Até 7 vezes?”’ (MT 18,21-22). A matemática de perdão de Jesus é formidável! Temos dificuldade de perdoar uma única ofensa, um só prejuízo que nos causam, e Ele nos quer perdoando 490 vezes quem nos fere e machuca? Enfim, o que vale é a misericórdia: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
Mas de onde Nosso Senhor tirou os números de sua “conta da misericórdia”? Ora, da Bíblia! Sim, do Livro do Gênesis. Já mostro!
Caim matou Abel, e o Pai do Céu não matou Caim, mas o marcou de modo que ninguém o assassinasse: “Pois bem se alguém matar Caim, 7 vezes encontrará vingança!” (Gn 4,15). Essa história de matar um porque um matou outro só gera mortes sucessivas! O Pai do Céu nos avisa, pelo sábio autor do Gênesis, que mal feito por alguém contra pessoa não torna justo fazer-lhe mal! Nada de: “Matou? Tem de morrer!”. Por isso “o Senhor marcou Caim com um sinal para que não fosse morto pelo primeiro que o encontrasse” (Gn 4,15).
Lembrete:
Ponho-me na presença de Deus e ofereço a Ele.
Então, situo-me em meu mundo real. Considero como vivo rodeado de violência e ira, num ambiente que se deteriora pouco a pouco pela autodecepção, falta de esperança e pelo erro, e sob a continua ameaça de um holocausto nuclear. Considero que tenho deixado muito dessa desordem entrar em mim mesmo, e parte dela antes mesmo de qualquer decisão livre.
Meditação:
E, agora, peço a Deus o que estou desejando: sentir a tristeza do pecado em minha própria vida, cada vez mais e mais profundamente. Que eu tenha lágrimas em meu coração pelos meus pecados, e mesmo em meus olhos.
Semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força... num instante, num piscar de olhos, ao som da trombeta final... os mortos ressuscitarão imunes à corrupção, e nós seremos transformados. Sim, é necessário que este corpo corruptível revista a incorruptibilidade; que este ser mortal revista a imortalidade! Quando, pois, este ser mortal tiver revestido a imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura:
‘A morte foi absorvida na vitória! Morte, onde está tua vitória? Morte, onde está o teu ferrão’” (Isa 25,8; Os 13,14; Ap 20,14).

25 de set. de 2012

REVELAÇÃO DE AMOR

“Cumpre sua divina vocação. “ele escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).
Evita ao máximo o rebuliço dos homens: é um grande incômodo tratar dos negócios do mundo, mesmo com pura intenção. Bem depressa a vaidade nos mancha o nos mantém cativos. Teria sido melhor que eu tivesse calado mais vezes e tivesse evitado o comércio com os homens.
Por que gostamos tanto de jogar conversa fora, quando é raro que voltemos ao silêncio sem dano de consciência? Gostamos tanto de falar porque em nossas conversas procuramos a consolação mútua e porque desejamos confortar nosso coração, que se fadiga nos rodeios do pensamento. É com grande prazer que falamos e pensamos no que amamos ou desejamos muito, ou no que nos contraria.
Exame de consciência: passar o filme da vida, começando neste momento e vendo atrás. Se houver distrações, ir atrás da distração até a origem dela. Não condenar nem aprovar o “filme”, só observar.
Ah! Esta pessoa vai ler a narrativa de Noé com o mesmo Espírito com que foi recolhida e posta na Bíblia: como revelação do Amor do Pai. Ele não fica indiferente diante de nossas malícias e crimes, de nossos roubos, fraudes e chacinas. Ele dá vocação aos seus amigos para defenderem a vida. Assim, Noé atravessa os tempos de provação salvando, socorrendo. Cumpre sua divina vocação. “ele escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). Que vida? Não somente a vida humana, mas toda a vida, sem deixar de lado sequer as pulgas, que certamente entraram em sua arca no pelo da cachorrada, se assim você quiser imaginar!
O que nos vale e salva em tempos duros e cheios de maldade é em tudo buscar e achar a vontade de Deus. “Noé fez tudo o que Deus mandou” (Gn 6,22). Fora dessa bela, boa e santa vontade não há salvação.
Apesar de estar completamente alienado de Deus, as leis que Ele imprimiu na terra e no mar me sustentavam – o ar encheu meus pulmões, a comida foi digerida por meu sistema digestivo, a luz entrou pelos meus olhos. Eu estava totalmente fora de sincronia. Mais que isso. Por que as pessoas santas não foram movidas pelo Espírito para acabar com minha maldade, ou até comigo mesmo? Como os anjos puderam continuar protegendo-me, em vez de riscar-me desta vida? Por que a terra não me consumiu? Por que não fui posto num lugar em que tantas pessoas gostariam que eu tivesse ido?
Lembrete:
Finalmente: volto-me para Deus, meu misericordioso Senhor. Dir-lhe-ei o que me ocorrer, deixando fluir meus pensamentos e dando-lhe graças por me haver dado vida até este momento. Determino-me a não fazer nada disso novamente, com a ajuda divina. E termino com um Pai Nosso.

24 de set. de 2012

NOÉ, HOMEM HONRADO

“As inadvertências, quem as descobre? Perdoa-me as culpas que não vejo. Também do orgulho salva teu servo para que não me domine; então serei irrepreensível, e imune do grande pecado” (Sl 19,8-16)
Indicações para um relaxamento mais pessoal:
Disponha-se... Rompa com a sequência do que tem de ser feito e do que vai acontecendo... Repouse um pouco o corpo e o espírito... No compasso da respiração, do hálito da vida, dom de Deus, considere o que vai fazer e diante de quem está... Nele, em Deus, “nós somos, vivemos e existimos... Ele é quem dá todos a vida, a respiração e tudo o mais” (At 17,28-25). Faça a oração preparatória:
“Que tudo o que sou e tudo o que me dás esteja, agora, voltado para ti. Que eu saia daqui melhor para o mundo, mais verdadeiramente gente para os outros!”
Já ouvi dizer muitas vezes que é mais seguro escutar e receber conselhos do que dá-lo. Pode ser que o ponto de vista de cada um seja justo. Mas recusar-se a dar confiança aos outros quando a razão ou o assunto o exigem é sinal de orgulho e teimosia.
Em tempos difíceis, que barco você prefere para escapar do dilúvio? Não precisa ser dilúvio de água. Pode ser da lama corrupção e das maracutaias. Pode ser de bombas e tiroteios. Você sempre não vai escolher um navio de capitão honesto: “O Senhor, vendo que, na terra, e seu coração se afligiu (...). naquele tempo, Noé foi um homem direito e honrado, que conversava com Deus (...). A terra estava corrompida diante de Deus e cheia de crimes (...). Disse Deus a Noé: ‘Fabrica uma arca...”’ (Gn 6,5-22).
Arca rima com barca. Quem gosta de embarcações vai ficar curioso com o tamanho da barcaça de Noé e seu método de construção. Quem gosta de geografia ficará horas debatendo se ela aportou ou não no Monte Arará. Quem gosta de geologia ou arqueologia ficará contente ao descobrir a enorme camada de lodo, que comprova uma formidável inundação na parte final dos vales do Eufrates e do Tigre, onde ficou a memória do tremendo dilúvio “que afogou todo o mundo”. Quem gosta de lendas vai colecionar antigas memórias de outros colossais cataclismos, recontados por gerações em diferentes partes da Terra.
E quem gosta de Deus vai meditar sobre Noé e a sua honestidade em um mundo corrupto.
Lembrete:
O espírito de cobiça luta para guardar tudo o que ele tem acumulado. Eu quero que fiques livre de todas as armadilhas desta vida. Não te apegues àquilo que alguém te deu e talvez queira de volta um dia. Devolve o presente e eu te abençoarei. Pois, mesmo se as coisas te pertencem por direito, o espírito de cólera e cobiça lançaram uma maldição sobre elas e eu não posso abençoá-las. Abraão recusou aceitar até um cadarço que viesse das cidades malditas de Sodoma e Gomorra (cf. Gênesis 14,23), e por causa dessa atitude tão honesta eu lhe fiz esta promessa: “Não temas, Abraão! Eu sou teu escudo protetor; tua recompensa será muito grande” (Gênesis 15,1). Eu te darei tudo aquilo que devolveres de bom grado.

23 de set. de 2012

VALOR DA VIDA

“Do seu santuário Deus é terrível, o Deus de Israel dá força e vigor a seu povo, bendito seja Deus!” (Sl 68,34-36).
É uma grande coisa permanecer na obediência, viver sujeito a um superior e não ser dono de si mesmo. É muito mais seguro permanecer na submissão do que na autoridade. Muitos obedecem mais por necessidade do que por amor. Então sofrem e se queixam por qualquer coisa. Não conquistarão a liberdade de espírito, a não ser que se submetam de todo o coração, em nome de Deus.
Consulta médica: “Você tem apenas dois meses de vida!” com quem irei falar? Aonde irei? Que penso fazer? De noite, diante de Cristo, na capela. Redigir uma carta ao provincial.
As melhores coisas da vida são gratuitas. Só se apreciam quando estão para serem perdidas.
Variar este exercício para apreciar outras coisas belas. Imaginar que estou no céu. Ou na prisão. Vista. Saúde. Liberdade. Amizade. Ou até insignificâncias: a água corrente, a luz elétrica, os lençóis da cama.
Uma curiosidade: Caim é tido como antepassado dos “quenitas”. Eram nômades que adoravam Javé (Deus), mas viviam fora da Terra Prometida e nada sabiam da Aliança. Os israelitas, no tempo da realeza, estranhavam esse modo de vida. No entanto, assim vivera Abraão! Os nômades são migrantes sem pátria! Contudo, Deus os ama, como amava Caim, a quem pergunta: Que fizeste?. Deus não nos estranha, nem rompe conosco, quando pecamos contra nosso irmão e dizemos: Sou, porventura, guarda de meu irmão? Somos nós que rompemos e damos as costas a Ele, que vem, sempre de novo, a nosso encontro.
Quando você reler a história de Caim, lembre-se de levantar os olhos e ver o Pai de Caim, o Pai nosso que estás nos céus!
Identificarei qualquer coisa que não aprovo, de acordo com minha própria consciência e, voltando-me para Deus, pedirei perdão.
Desejarei e decidirei a maneira de atuar amanhã, contanto que Deus me conceda tal graça.
Conheces o opróbrio, a confusão e a ignomínia que padeço. Na tua presença estão todos os que me afligem. A ignomínia oprime meu coração e eu vacilo, esperei em vão quem tivesse pena de mim, procurei quem me consolasse, mas não encontrei (Sl 69,19-25).
Meditação:
“E nós mesmos, por que a todo momento nos exportamos ao perigo? Diariamente estou exposto à morte... De que adiantaria lutar contra as feras, se eu tivesse apenas interesses humanos? Se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’” (1Cor 15,30-32).
Portanto, o sentido da vida adquire densidade e fundamento pela fé na ressurreição:
“Agora vemos em espelho, de maneira confusa, mas depois veremos face a face. Agora, o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido...” (1Cor 13,12).

22 de set. de 2012

CAIM

“O que deseja de Caim é que ele se arrependa e faça o bem” (Gn 4,6-7).
É preciso manter a caridade para com todo mundo, mas a familiaridade não convém. Às vezes acontece que alguma pessoa goze de excelente reputação quando não é conhecida, mas desaponta quando vista de perto. Às vezes pensamos que os outros gostam de se encontrar conosco, mas na realidade lhes desagradamos pela conduta que nos vêem demonstrando.
Que escritor não gostaria que um personagem seu fosse milenar e mundialmente famoso? O desconhecido autor humano do Livro do Gênesis, cooperando livremente com o autor divino, o Espírito Santo, conseguiu esse prodígio com várias de suas “criaturas”: Caim, por exemplo. Existiram Caim e Abel? São caracterizações do conflito entre pastores e agricultores, ou nômades e sedentários? Nada indica que as relações entre esses grupos humanos tiverem sido, habitualmente, de discórdia e luta. Caim, no entanto, é um tipo humano. Seu conflito é um conflito humano: um irmão roído de ciúmes. Alguém que olha tanto para si mesmo, para o que sente e para a importância que, acredita, lhe é devida que se torna assassino. Todos nós conhecemos Caim. Todos nós reconhecemos em Caim, isto é, temos “algo” em nós que nos prova que Caim é nosso irmão.
Se Caim é nosso irmão, neste caso é filho de Deus. Olhamos tanto para ele que nos esquecemos de olhar para nosso Pai. Nosso Pai assinala Caim, para que ninguém se sinta autorizado a persegui-lo e matá-lo. O que deseja de Caim é que ele se arrependa (v.6) e faça o bem (v.7). O Pai do Céu sabe esperar! Já no Gênesis percebemos o vulto do Pai de Jesus, do Pai do filho Pródigo e de seu irmão mais velho, honesto, mas duro de coração, ciumento como Caim!
Dou graças a Deus Nosso Senhor por tudo o que Ele tem feito por mim e por toda a humanidade.
Peço a Deus que ilumine minha mente para ver meus pecados e para que me ajude a viver sem eles.
Lembrete:
Pergunto-me sobre o que tenho feito. O que tenho dito ou deixado de dizer? O que tenho feito ou deixado de fazer? Examino o meu dia, talvez um pouco sistematicamente – por períodos de tempo, ou através de algum outro método.
É muito importante que aqueles que desejam crescer em Cristo dediquem algum tempo no fim do dia para agradecer a Deus pelo dia e examinar como estão concretizando suas esperanças e intenções.
Vá concluindo com um colóquio. Ajuda a lembrar-se de nossa gente que não chega a crer... dos que estão impossibilitados de crer, pois precisam, com a graça de Deus, do seu testemunho de vida, de sua ação cristã, de sua oração, de sua palavra, edificando sobre o Fundamento que Cristo (1Cor 3,11), prolongando, como pedra viva (1Pd 2,5), as colunas dos apóstolos (Ef 2,2)... Encerrar com o Pai Nosso.

21 de set. de 2012

CONCILIAÇÃO DE LEMBRANÇAS

“Só o dom maior da caridade pode nos curar do “complexo de Caim e Abel” (1Cor 12,31).
Não abras teu coração a qualquer um: trata de teus negócios com quem é prudente e temente a Deus. Procura não andar muito com gente jovem e desconhecida. Evita as bajulações os ricos e não desejes aparecer na presença dos grandes. Alia-te aos humildes e simples, às pessoas de oração e de bons costumes, e trata daquilo que pode edificar.
Regressar a uma lembrança desagradável do passado recente: reviver a experiência. Logo colocar-se diante de Cristo crucificado. Sem falar. Só comunicação, sem falar. Relacionar o acontecimento desagradável com Cristo crucificado.
Uma vez, em Paulo Afonso, as pessoas do Movimento Bíblico me perguntaram se Caim e Abel existiram. Tive de responder: “Olhemos em volta! Não só existiram, mas continuam a existir!”. Um grande e santo homem, Dom Luciano Mendes de Almeida, jesuíta, um dia disse que no mundo havia abundância de recursos naturais e humanos, notável ciência e técnica. O que tem estado em falta é a caridade.
Até nas coisas pequenas e, talvez, sobretudo nelas. Contaram-lhe que uma senhora criticava asperamente o Padre, no banco mesmo da Igreja, durante a Missa, porque o padre fazia a homilia sentado. Na verdade, Jesus costumava sentar para falar ao povo: uma vez na barca de Simão Pedro (Lc 5,2), outra vez na encosta da montanha (Mt 5,1). Lembram-se?
A Caridade é a vida da Trindade: Deus é amor. Quem ama permanece em Deus. Quem ama seu irmão, mesmo inimigo, neste permanece o Amor de Deus (cf. 1Jo 4). Só o dom maior da Caridade (1Cor 12, 31-13,13) pode nos curar do “complexo de Caim e Abel”. A Caridade é um ato de amor.
Mateus (26,39) e Lucas (22,22) não guardaram o termo aramaico quando Jesus se dirigia ao Pai, “ABBA!”. É um registro próprio de Marcos. É comovente ver Jesus se dirigindo ao Pai com a linguagem das crianças de sua gente. Com efeito, “ABBA!” é o termo usado pelas crianças. Equivale a “Papai!”, “Painho!”, “meu Pai!”, “Paizinho!”... Quase afundando em angústia, pois captava em sua carne toda a carga de mal e perversão que causa a tragédia humana, Jesus invoca amorosamente a Deus com a toda a intimidade e ternura.”ABBA!”
Não há dúvidas de que “Abba!” é, certamente, uma palavra do próprio Jesus. (8,15) e aos Gálatas (4,6).
Meditação:
“Na Cruz estava oculta a Divindade, mas aqui também se esconde a Humanidade: creio em ambas e peço, como o bom ladrão, lembra-Te de mim no Teu Reino!
Não vejo as chagas, como as viu Tomé, e, contudo, Te reconheço, Senhor meu e Deus meu: dá-me crer sempre em Ti, maior esperança, mais forte amor!...
Jesus, a quem oculto agora vejo, dá-me, peço, o que tanto aspiro: face a face, já sem véus, na glória contemplar-te eternamente!”.
(do hino “Adoro te devote” [“Com devoção], de santo Tomás de Aquino, no séc. XIII)